Deixa que Eu Faço!

Revista Encontro - fev 2005 

Cada vez mais pessoas contratam empresas especializadas para fazer tarefas simples do dia-a-dia, como arrumar o guarda-roupa
RAQUEL AYRES

Correr. Correr para não chegar atrasado ao trabalho. Correr durante a execução do trabalho, para dar conta de fazer metade das tarefas agendadas para o dia. Correr para conseguir se encontrar com as crianças pelo menos durante algumas poucas horas. Correr para a reunião. Correr. Esta é a palavra de ordem dos nossos dias. Uma das conseqüências deste correcorre da vida moderna é que as pessoas passaram a considerar desperdício dispensar tempo para realizar tarefas que fazem parte do cotidiano, como fazer supermercado ou organizar gavetas. Muitas pessoas preferem contratar empresas especializadas na administração doméstica. Os serviços oferecidos vão da arrumação de armários aos serviços de cartório, compra de presentes, reservas em restaurantes, até o aluguel de imóveis e a matrícula escolar das crianças. “Isso acontece porque a vida moderna mira o futuro. Para concretizá-lo, o homem busca viver além dos compromissos tradicionais. As pessoas se ocupam de toda forma, o que faz com que o tempo encurte“, explica o professor de filosofia Olímpio José Pimenta Neto.

A agenda da fisioterapeuta estética Adriana Bastos, 37, explica com clareza o que significa este fenômeno do encurtar o tempo. A rotina inclui trabalho de 8h às 18h, aulas de inglês, ginástica, reuniões com seu grupo de estudo sobre a Bíblia e dois filhos. “Nunca tinha tempo nem paciência de organizar nada. Ficava sempre adiando“, diz Adriana. Para resolver o problema, ela contratou uma empresa especializada em colocar a casa em ordem, literalmente. Em um dia, cozinha, dispensa e área de serviço foram organizadas. O vasilhame foi remanejado. Os mantimentos em uso, guardados em recipientes identificados por etiquetas e ordenados por data de validade. Produtos de limpeza fechados foram separados dos que estavam abertos.

Outra que se queixa de falta de tempo para andar em dia com as pequenas tarefas cotidianas é a artista Sandra Viana Matos. Às 9h da manhã ela já está tendo aulas de artesanato,que terminam às 17h. Sandra ainda ministra aulas em seu ateliê e faz ginástica diária. Ao mudar-se no final de 2004 para uma casa no condomínio Vila Alpina, em Nova Lima, não teve dúvidas: contratou uma empresa para cuidar de tudo. Foram arrumados três closets, gavetas, a rouparia e o ateliê onde Sandra dá aula. Caixas diversas foram acomodadas. Toalhas, roupas de cama, mesa, banho e peças do vestuário foram dobradas e guardadas para aproveitar bem todos os espaços. “Do modo como tudo foi acomodado ficou mais fácil mexer nos closets e conservá-los em ordem. As peças são separadas também pela cor. O espaço fica bonito“, diz Sandra.

Mas por qual razão contratar alguém e delegar funções que há alguns anos eram consideradas obrigações pessoais, independentemente da disponibilidade de tempo para executá-las? De acordo com a psicóloga Mariza Tavares Lima, este tipo de serviço é enfadonho e até estressante para muitos. Além disso, não são vistos como essenciais e as pessoas preferem dedicar as poucas horas de folga para o lazer e o contato com familiares e amigos. A mudança na dinâmica da vida também explica a contratação de profissionais para executar afazeres cotidianos. “A mulher assumiu novas responsabilidades ao ingressar no mercado profissional. Simultaneamente, as tecnologias – celular, computador e internet – envolveram e estimularam as pessoas a trabalharem mais. Por um lado gerou ganho financeiro e comodidades, mas por outro perdem-se as coisas simples do dia-a-dia“, reflete o sociólogo Dimas Antônio de Souza.

Como tudo tem dois lados, Mariza afirma que estas pequenas tarefas aparentemente chatas, que tomam parte preciosa de um tempo já curto, têm seu valor. “A rotina doméstica serve como referência de organização não apenas externa, mas também interna“, esclarece. Olímpio vai mais longe. “Quando arrumamos a casa e organizamos a rotina, estamos também encarando a nossa condição. Vemos o quanto as coisas sujam, quebram e estragam“, pondera. É. Neste mundo veloz nada é simples. Nem mesmo a administração do tempo que nos dias de hoje coloca em último plano afazeres corriqueiros e até bastante íntimos, como a arrumação de um guarda-roupa, por exemplo. Afinal de contas, tempo é dinheiro, não é mesmo? Pensando bem, haja filosofia para entender tudo isso!

Publicado em: Fevereiro de 2005 (Revista ENCONTRO)
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